Pankration

Arte Marcial Grega Ancestral

O que é o Pankration?

O Pankration (Παγκράτιον) é uma arte marcial grega pré-olímpica para combate desarmado. Etimologicamente, Pan significa Tudo, enquanto Kratos significa Poder ou Domínio. Assim, de forma literal, o Pankration pode ser entendido como Todo o Poder, o que em termos de Artes Marciais, poderia ser o equivalente ao Vale Tudo da antiguidade.

Uma análise mais cuidadosa, entretanto, nos leva a entender o Pankration como uma arte aberta e holística, que admite diferentes técnicas e procura crescer para dominar – no sentido de abranger – tudo. Neste sentido, o Pankration pode ser entendido como uma disciplina que vai além do aspectofísico marcial, envolvendo também os aspectos mais profundos do ser humano de forma holística.

Em termos de técnica de combate, o Pankration envolve técnicas de socos, cotoveladas, chutes, joelhadas, como também técnicas de projeções, imobilizações, chaves e estrangulamentos, podendo ocorrer tanto em pé como na luta de chão.

Origens e História

A origem do Pankration remonta à Era Lendária da civilização grega, também conhecida como Era Pré-olímpica, ou seja, anterior às Olimpíadas, que eram uma forma de marcação histórica do tempo. Assim, a era pré-olímpica estende-se desde aproximadamente 800 A.C. ao passado mais remoto. O Pankration, portanto, remonta aos mitos, lendas e epopeias, como narradas por Homero e outros, muitos anos depois.

Diz a lenda que o semi-deus mitológico Teseu criou o Pankration para derrotar o Minotauro, um monstro com corpo de homem e cabeça de touro que habitava um labirinto na ilha de Creta e que devorava jovens lançados a ele em sacrifício. O mito por trás dessa lenda diz muito sobre o significado profundo do Pankration para o desenvolvimento do ser humano: o labirinto simboliza nossa complexidade psico-física, na qual muitos se perdem sem encontrar um caminho ou sentido real para a vida. O Minotauro simboliza a força animal interior que, quando não controlada, “devora” a inocência, pureza e potencialidade da alma humana (representada pelos jovens sacrificados). A derrota do Minotauro representa a superação – no sentido de uma Ação Superior – de Teseu, que, desta forma, cumpre o Caminho do Herói. Neste sentido, o mito aponta para o Pankration como um instrumento para o desenvolvimento interior. Mas, sem dúvida, esta é apenas uma significação dentre muitas.

Teseu e o Minotauro

Algo semelhante pode ser encontrado no mito de Hércules (Héracles, em grego) e seus 12 trabalhos. Sem entrar nos significados profundos de cada um dos trabalhos ou mesmo no aspecto simbólico do número 12, destaca-se em muitas representações artísticas deste mito o Pankration, como na luta de Hércules com o Leão da Neméia. Na mitologia romana, Hércules luta e derrota Caco, um homem animalesco (novamente, o “homem animalesco” que está dentro de todos nós) que vivia no Monte Palatino, nos primórdios de Roma.

Hércules aplica uma "gravata" no Leão da Neméia

Já na Era Olímpica da Grécia, o Pankration era uma das modalidades “esportivas” das Olimpíadas, que está grafado entre aspas por conta da brutalidade da prática, mais próxima de combate de gladiadores do que do que entendemos hoje por esporte. Por ser extremamente brutal, com mínimo de regras como não enfiar dedo no olho ou morder, o Pankration era restrito a poucos praticantes, por conta do elevado número de lesões que oferecia.

Assim, duas modalidades esportivas mais moderadas derivaram do Pankration: o Pugilatum e a Palé (πάλη - luta). O primeiro é o avô do atual Boxe, também conhecido como Pugilismo. No Pugilatum apenas golpes de mãos eram permitidos e muitas vezes os lutadores utilizavam faixas de couro nas mãos. A segunda é a antecessora da atual luta olímpica (Wrestling) e greco-romana. Interessante notar que ambas as modalidades passaram a integrar as Olimpíadas modernas, sendo que a luta desde sua criação em 1894 pelo Barão de Coubertin. Mas o Pankration caiu no esquecimento... Diz a lenda que permaneceu, de forma muito hermética, entre pastores das aldeias da Grécia.

O Pankration na Filosofia Clássica

Embora fosse um esporte olímpico de brutalidade extrema, há indícios históricos de que o Pankration era praticado também em contextos mais suaves, dentro das Academias Filosóficas. Vale lembrar que, embora tendo as modalidades suavizadas do Pugilatum e da Palé, as necessidades de defesa pessoal da época eram, no mínimo, tão importantes como são hoje em dia. Assim, é de se esperar que em uma academia onde se praticava a Palé ou o Pugilatum, também fosse ensinado o Pankration para fins de defesa pessoal. Até hoje em academias esportivas de artes marciais, são ensinadas técnicas de defesa pessoal que não podem ser utilizadas em competições.

Pitágoras de Samos, em sua juventude, foi campeão do Pugilatum na 48ª Olimpíada. Em sua maturidade, fundou a Academia de Crotona, na atual Sicília-Itália. Voltada para o desenvolvimento espiritual dos seres humanos, na Academia de Crotona se praticava a ginástica, incluindo as formas de lutas – e provavelmente o Pankration como defesa pessoal, a matemática e a música. Foi inovadora também por ser unissex, sendo que as mulheres realizavam as mesmas práticas dos homens.

Atualmente, Pitágoras é conhecido quase que somente pelo teorema que leva seu nome. Mas a contribuição de Pitágoras para a humanidade é muito mais do que isso: Pitágoras estabeleceu bases filosóficas e matemáticas que influenciaram profundamente os filósofos socráticos e, muitos séculos depois, os maçons construtores das catedrais góticas e posteriormente os mestres renascentistas, como a Proporção Áurea (número Phi 1,618), os números como representações divinas e universais (sobretudo, o número 3). É também atribuída a Pitágoras a escala musical de 7 tons, com intervalos harmônicos desiguais (entre Mi e Fá e entre Si e Do), bem como alguns acordes musicais que são utilizados até hoje.

No que tange as Artes Marciais na Academia de Crotona, destaca-se o lendário lutador Milo (ou Milon, em grego). Conta a lenda que ele foi campeão da luta em 5 olimpíadas consecutivas, sendo que alguns autores falam ainda em um sexto campeonato, na categoria infantil. Milo era um homem de força extraordinária e diz a lenda que começou seu treinamento carregando um bezerro e prosseguiu carregando-o quando o bezerro já era um touro. Supostamente, morreu ao tentar rasgar ao meio um tronco de árvore com as mãos.

Platão quando jovem mostrava-se não somente forte fisicamente como interiormente. Assim, seu treinador de luta Ariston (mesmo nome de seu pai) deu-lhe este apelido, que significa “ombros largos”. O apelido pegou tão bem que por quase 2500 anos ele é conhecido por Platão e poucos lembram seu nome (que era Aristocles). Na República, Platão destaca a importância da ginástica, da música e das artes na formação do guerreiro, com destaque para as Artes Marciais. Na República (e mais tarde expandido em sua obra As Leis), Platão rejeita o estilo de luta focado em competições de arena (jogos públicos), pois os truques usados para vencer uma luta esportiva no chão não servem no campo de batalha. Platão destaca a luta em pé, focando na desenvoltura dos movimentos, na flexibilidade, na agilidade para desviar de golpes e na habilidade de derrubar o adversário permanecendo de pé (o que preserva a mobilidade militar). É interessante notar que no mesmo livro Platão trata tanto das Artes Marciais como de seu mais elevado mito, no sentido filosófico e espiritual: a Alegoria da Caverna.

Em sua Retórica, Aristóteles menciona explicitamente a importância da prática do Pugilatum e do Pankration, destacando a capacidade para a luta como uma das virtudes essenciais do corpo, ao lado da saúde, beleza, força e estatura. Ele define a força necessária para a luta da seguinte forma:

Aristóteles traça um paralelo entre o bom lutador e o bom Pensador e Argumentador, na arte retórica e dialética, mas enfatiza que tanto o treinamento físico quanto o mental devem sempre caminhar juntos, de forma harmônica e sem exageros.

Estes são apenas alguns exemplos de como, na Grécia Clássica, as Artes Marciais representavam um importante instrumento de desenvolvimento físico, mental e espiritual. Era um caminho para a Kalokagathia.

A Kalokagathia (do grego καλοκαγαθία) é um dos conceitos mais profundos e bonitos da Grécia Antiga. Ele representa o ideal clássico de perfeição humana, sintetizado na união indissociável entre a beleza física e a virtude moral. Etimologicamente, é a fusão de dois adjetivos gregos: Kalos (καλός), que significa Belo, harmonioso, esteticamente agradável ; e Agathos (αγαθός), que significa Bom, virtuoso, honrado, moralmente reto.

Para os gregos do período clássico (especialmente em Atenas), esses dois conceitos não podiam existir separados. Não bastava ter um corpo esculpido e atlético se a alma fosse injusta ou ignorante; da mesma forma, uma mente brilhante ou virtuosa em um corpo negligenciado e fraco era vista como uma falha de harmonia. A kalokagathia é, essencialmente, a harmonia entre o exterior e o interior. No Pankration, a kalokagathia tem o mesmo sentido que o DO, nas atuais Artes Marciais.

O Pankration moderno

O Pankration que existe hoje é muito mais uma reconstrução a partir de técnicas de lutas modernas do que reminiscência do original. Em realidade, os registros históricos do Pankration clássico encerram-se por volta do 300 D.C, o que significa mais de 1000 anos de história desde as primeiras olimpíadas. Ora, é pouco provável que ao longo de todo este tempo as técnicas tenham mantido qualquer rigor formal. Entretanto, por ser uma arte marcial aberta, sem movimentos, gestos ou estilos rígidos e formais, supõe-se que as técnicas se adaptaram visando a eficiência combativa. Como a biomecânica do corpo humano permanece essencialmente a mesma, uma luta de Pankration lembra muito uma luta de MMA moderna, que combina as técnicas mais eficientes de diferentes modalidades.

Entretanto, em sua forma esportiva atual, o Pankration tem mais regras e limitações que o MMA: são atribuídos pontos aos golpes, quedas e imobilizações, não são permitidos socos na cabeça, etc. Na Europa, com destaque para os países do leste, o Pankration foi reeditado como prática esportiva e alguns campeonatos de Pankration foram organizados: Playlist de Campeonatos modernos.

Como pesquisa acadêmica, um extraordinário trabalho de reconstrução das técnicas perdidas do antigo Pankration vem sendo realizado, através de estudos cuidadosos de pinturas em vasos, afrescos e esculturas: Pankration Channel. Destaque também para a bela pesquisa do prof. Athanasios Bonas, sobre as técnicas de mãos e chutes do antigo Pankration:

No Brasil, desconheço a existência de alguma academia de Pankration; a que tive o privilégio de estudar existiu de forma hermética e não comercial em São Paulo, para um grupo restrito de alunos, encerrando-se com a Pandemia de Covid em 2020.